Faltam duas semanas para começar a 28ª Conferência das Partes, a COP28, mais comummente chamada de Cimeira do Clima das Nações Unidas. Tem tudo para correr mal. Vejamos porquê. 1. Vai ter uma dificuldade imensa para se impor no espaço mediático. Com uma guerra na Europa, outra no Médio Oriente e uma crise económica assente na inflação, é natural que a COP28 tenha sérias dificuldades em conquistar tempo e espaço noticioso. (Podemos, noutras núpcias, debater se a culpa é dos jornalistas/editores ou do público, mas, para o resultado final, essa discussão é inútil). E, já se sabe, sem peso mediático os decisores políticos não sentem pressão para apresentar resultados. Ou sequer para aparecer: nem Xi Jinping nem Joe Biden, os líderes dos países com maiores emissões (juntos, China e EUA representam quase metade das emissões de dióxido de carbono), deverão marcar presença na Cimeira. Sim, o Papa confirmou a sua presença, o que dará sempre para fazer títulos com umas citações de circunstância, mas ninguém espera que uma declaração de Francisco sobre ação (ou inação) climática abra noticiários.
2. O momento que atravessamos nesta Segunda Guerra Fria é (mais) um obstáculo às negociações. Vivemos um clima (passe a expressão) de antagonismo entre os países mais poderosos do mundo, como não se via desde a queda da URSS. Nos últimos anos, mas muito mais abertamente desde a invasão russa da Ucrânia de fevereiro de 2022, a relação de desconfiança entre o bloco das democracias ocidentais, liderado pelos EUA e União Europeia, e o eixo encabeçado pela China (ansiosa pelo seu “lugar ao sol”, como dizia a Alemanha pré-Primeira Guerra Mundial, para justificar as suas pretensões a tornar-se uma potência global) e pela Rússia deu lugar a um confronto diplomático e económico sem precedentes nas últimas décadas. Este confronto não é conjuntural: está a provocar mudanças estruturais nas relações entre Estados e a reformular as cadeias de produção e abastecimento, redesenhando o próprio comércio global (no primeiro semestre deste ano, o México ultrapassou a China como principal parceiro económico dos EUA). Este ambiente é mais uma barreira a entendimentos entre os países que têm realmente poder para mudar o rumo do clima, entendimentos esses que já são muitíssimo improváveis em períodos de paz geopolítica.
3. A COP28 acontece num petro-Estado - e é dirigida pelo CEO de uma petrolífera O anfitrião da Cimeira do Clima deste ano são os Emirados Árabes Unidos, o sétimo maior produtor de petróleo do mundo (o que não deixa de ser notável, atendendo a que possui uma população mais pequena do que Portugal). Um terço do orçamento dos Emirados tem, aliás, origem nos combustíveis fósseis. E o mestre de cerimónias é Ahmed Al Jaber, CEO da Companhia Nacional de Petróleo de Abu Dhabi (ADNOC), a 11ª maior empresa de petróleo do mundo. O anúncio de que a COP28 seria presidida por Al Jaber foi recebido com protestos por parte de ambientalistas, e não só: mais de 130 eurodeputados e senadores e congressistas americanos assinaram uma carta aberta, endereçada a Ursula von der Leyen, Joe Biden e António Guterres, a exigir o seu afastamento. Outra carta, publicada no Financial Times e da iniciativa dos governos alemão e canadiano, pedia a Al Jaber que centrasse a COP na "eliminação progressiva" dos combustíveis fósseis. A sua resposta? "Reduzir gradualmente a procura e a oferta de todos os combustíveis fósseis é inevitável e essencial." A troca de "eliminação" por "redução" já não augura nada de bom quanto à direção dos trabalhos, mas um relatório das Nações Unidas, publicado a semana passada, mostra que nem a redução está no horizonte: os planos conhecidos dos países produtores de combustíveis fósseis até 2030 vão levar a uma subida da produção de mais 69% do que o necessário para manter o aumento da temperatura média global em 2ºC, o limite máximo admitido pelo Acordo de Paris. Os EAU estão nesta lista de países que se preparam para expandir a produção. E a própria ADNOC, dirigida por Al Jaber, é a quinta empresa do mundo com os planos de expansão mais ambiciosos, tendo anunciado um investimento de 150 mil milhões de dólares com o objetivo de aumentar a produção em 7,6 mil milhões de barris de petróleo equivalente nos próximos anos. Podemos sempre ver o copo meio cheio: face às expectativas, dificilmente a COP28 será uma deceção. |
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